A busca


Todos buscamos paz e harmonia, por ser o que falta em nossas vidas. Todos nós desejamos ser felizes. No entanto, a felicidade é um objetivo mais almejado do que alcançado. Por vezes, todos nós experimentamos insatisfações na vida - agitação, irritação, desarmonia, sofrimento. Mesmo se neste momento estivermos livres dessas insatisfações, todos recordamos uma época em que dissabores nos afligiram e podemos prever uma hora em que podem voltar a surgir. Eventualmente, teremos todos que enfrentar o sofrimento da morte.

Além disso, nossas insatisfações pessoais nunca se mantém limitadas a nós mesmos; pelo contrário, estamos continuamente compartilhando o nosso sofrimento com os outros. A atmosfera em volta de cada pessoa infeliz torna-se carregada de agitação; consequentemente, todos os que entram naquele ambiente também se sentem agitados e infelizes. Desse modo, tensões individuais combinam-se para criar as tensões da sociedade.

É este o problema básico da vida: a sua natureza insatisfatória. Acontecem coisas que não desejamos; coisas que desejamos não acontecem. E ignoramos como ou por que esse processo funciona, assim como ignoramos nosso próprio começo e fim.

Há vinte e cinco séculos, no norte da Índia, um homem decidiu investigar esse problema, o problema do sofrimento humano. Após anos de busca, e após experimentar vários métodos, descobriu um modo de ver com clareza a realidade de sua própria natureza e experimentar a verdadeira libertação do sofrimento.. Após alcançar o nível mais elevado de liberação, de liberação do sofrimento e do conflito, dedicou o resto de sua vida a ajudar os outros a fazer o que ele havia feito, mostrando-lhes o caminho para se libertarem.

Essa pessoa, Sidarta Gautama, conhecido como o Buda, "o iluminado" - nunca afirmou ser nada além de um homem. Como todos os grandes professores, inspirou lendas, mas, quaisquer que fossem as histórias maravilhosas contadas sobre suas vidas passadas ou seus poderes milagrosos, todos os testemunhos concordam que ele nunca afirmou ser divino ou divinamente inspirado. Quaisquer qualidades especiais que tivesse, eram preeminentes qualidades humanas que elevou à perfeição. Portanto, tudo o que ele alcançou está dentro das possibilidades de qualquer ser humano que trabalhe como ele trabalhou.

O Buda não ensinou nenhuma religião, filosofia ou credo. Chamou seu ensinamento Dhamma, que é "lei", a lei da natureza. Ele não tinha qualquer interesse em dogmas ou especulações inúteis. Em vez disso, ofereceu uma solução prática para um problema universal. "Agora como antes" disse, "eu ensino sobre o sofrimento e a erradicação do sofrimento". Ele se recusava a discutir qualquer coisa que não levasse á libertação do sofrimento.

Este ensinamento, insistia, não era algo inventado por ele, nem fora lhe revelado divinamente. Era simplesmente a verdade, a realidade que havia conseguido descobrir pelos seus próprios esforços, assim como muitas pessoas haviam feito antes dele. Não reivindicava qualquer monopólio sobre a verdade.Tampouco afirmou possuir qualquer autoridade especial para seu ensinamento - nem devido à fé nele depositada, nem devido à natureza aparentemente lógica daquilo que ensinava. Pelo contrário, declarou ser correto duvidar e testar tudo o que estivesse além da nossa própria experiência.

Não acredite simplesmente naquilo que lhe disseram ou que lhe tenha chegado de gerações passadas, ou da opinião geral ou por ser o que dizem as escrituras. Não aceite algo verdadeiro por mera dedução, ou por considerar aparências externas, ou por parcialidade por uma certa visão, ou pela plausibilidade, ou porque o seu professor lhe diz que assim é. Mas quando você próprio souber diretamente, "Esses princípios são nocivos, censuráveis, condenados pelos sábios; quando adotados e colocados em prática fazem dano e geram sofrimento", então deve abandoná-los. E quando você próprio souber diretamente, "Esses princípios são saudáveis, irrepreensíveis, louvados pelos sábios; quando adotados e colocados em prática geram bem estar e felicidade", então deve aceitar e praticá-los (Buda).

A autoridade mais elevada é a nossa experiência da verdade. Nada deve ser aceito apenas com base na fé: devemos examinar para ver se é lógico, prático, benéfico. Nem o fato de ter examinado um ensinamento à luz da razão basta para aceitá-lo intelectualmente como verdadeiro. Se quisermos os benefícios da verdade, precisaremos experimentá-la diretamente. Só então poderemos saber se é realmente verdade. O Buda sempre enfatizou ensinar apenas aquilo que tivesse experimentado por ele mesmo, pelo conhecimento direto, e encorajou os outros a desenvolver esse conhecimento por si mesmos, para se tornarem as suas próprias autoridades.

Cada um de vocês deve fazer de si mesmo uma ilha, deve fazer de si mesmo o seu próprio refúgio; não há outro refúgio. Faça da verdade a sua ilha, faça da verdade o seu refúgio; não há outro refúgio (Buda).

O único verdadeiro refúgio na vida, o único terreno sólido no qual se instalar, a única autoridade capaz de oferecer direção e proteção corretas, é a verdade, Dhamma, a lei da natureza, experimentada e verificada por cada um. Por isso, o Buda, no seu ensinamento, sempre deu a maior importância á experiência direta da verdade. Explicou, com a maior clareza possível, aquilo que experimentou, para que outros tivessem diretrizes para guiá-los no trabalho rumo à sua própria realização da verdade.

O ensinamento que apresentei não tem uma versão externa e outra interna. Nada ficou escondido no bolso do colete do professor (Buda).

Não era uma doutrina esotérica restrita a uns poucos eleitos. Ao contrário, quis tornar conhecida, da forma mais simples e mais extensa possível, a lei da natureza, para que o maior número possível de pessoas pudesse se beneficiar dela.

Também não tinha interesse em estabelecer uma seita ou um culto de personalidade com ele ao centro. A personalidade daquele que ensina, garantia, é de importância secundária comparada à do ensinamento. O seu propósito era mostrar aos outros como se libertarem, não transformá-los em devotos cegos.

Devoção por qualquer outra pessoa, por mais santa que seja, não basta para libertar ninguém; não pode haver libertação ou salvação sem a experiência direta da realidade. Logo, a verdade tem primazia, não a pessoa que a enuncia. Todo respeito é devido àquele que ensina a verdade, mas a melhor forma de demonstrar esse respeito é trabalhar para descobrir a verdade por conta própria.

O que o Buda ensinou foi um caminho passível de ser seguido por todo ser humano. Deu a essa trilha o nome de Nobre caminho Óctuplo, ou seja, uma prática de oito partes inter relacionadas. É nobre porque qualquer um que percorrer esse caminho passará, sem sombra de dúvida, a ser uma pessoa de coração nobre, repleto de santidade, livre do sofrimento.

É um caminho que leva à percepção consciente (insight) da natureza da realidade, um caminho de conhecimento da verdade. Para resolver os nosso problemas, precisamos enxergar nossa situação tal como é na verdade. É necessário aprender a reconhecer a realidade superficial, aparente e, também, avançar além da aparências para perceber verdades sutis, a verdade última e, finalmente, ter a experiência da verdade da libertação, seja nibbãna, "céu" ou qualquer outra coisa, não é importante. O importante é experimentá-la.

A única forma de experimentar a verdade diretamente é olhar para dentro, auto observar-se. Fomos acostumados a vida inteira, a olhar sempre para fora. Sempre estivemos interessados em ver as coisas que acontecem fora de nós, em aquilo que os outros estão fazendo. raramente, se tanto, procuramos examinar a nós mesmos, nossa própria estrutura física e mental, nossas ações, nossa própria realidade. Por essa razão, permanecemos desconhecidos para nós mesmos. Deixamos de perceber o quanto essa ignorância é nociva, o quanto continuamos escravos de forças internas das quais nem consciência temos.

É preciso eliminar essa escuridão interior para podermos aprender a verdade. Devemos penetrar nossa própria natureza para sermos capazes de compreender a natureza da existência. Portanto, o caminho mostrado pelo Buda é um caminho de introspecção, de auto observação.

Dentro desse próprio corpo mensurável, que contém a mente com as suas percepções, torno conhecido o universo, a sua origem, a sua extinção e o caminho para a sua extinção (Buda).

O universo inteiro e as leis da natureza que o regem devem ser experimentados dentro de cada um. Somente podemos experimentá-los dentro de nós mesmos.

O caminho é também um caminho de purificação. Investigamos a verdade a nosso respeito, não movidos pela vã curiosidade intelectual, mas ao contrário, com um propósito definido. Observando a nós mesmos, ficamos cientes, pela primeira vez, das reações condicionadas, dos preconceitos que obscurecem a nossa visão mental, que escondem a realidade e produzem sofrimento. Reconhecemos as tensões internas acumuladas que nos mantém agitados, infelizes, e percebemos que podem ser removidas. Aos poucos, aprendemos como permitir que se dissolvam e nossas mentes tornam-se puras, repletas de paz e de felicidade.

O caminho é um processo que exige aplicação contínua. Avanços repentinos podem ocorrer, mas são o resultados de esforços sustentados. É necessário caminhar passo a passo; a cada passo, no entanto, os benefícios são imediatos. Não seguimos o caminho com a expectativa de obter resultados a serem desfrutados somente no futuro, para alcançar um céu após a morte, aqui conhecido apenas por suposição. Os benefícios têm de ser concretos, nítidos, pessoais, experimentados aqui e agora.

Acima de tudo, é um ensinamento a ser praticado. Apenas ter fé no Buda, ou nos seus ensinamentos, não ajudará a nos libertar do sofrimento; nem bastará a mera compreensão intelectual do caminho. Esses dois fatores só têm valor se nos inspirarem a colocar os ensinamentos em prática. Somente a prática efetiva daquilo que o Buda ensinou dará resultados concretos e irá mudar nossas vidas para melhor.

Alguém pode recitar grande parte dos textos, mas se não praticá-los, tal pessoa inconsequente é como um vaqueiro que conta somente o gado alheio; não desfruta das recompensas da vida de quem se dedica a buscar a verdade. Outra pessoa pode ser capaz de recitar apenas umas poucas palavras dos textos, mas se viver uma vida de Dhamma, trilhando o caminho do início até o objetivo final, então desfruta das mesmas recompensas da vida daquele que vive á procura da verdade (Buda).

O caminho deve ser seguido, o ensinamento deve ser implementado; caso contrário, é um exercício sem nexo.

Não é necessário se dizer budista para praticar esse ensinamento. Rótulos são irrelevantes. O sofrimento  não faz distinções, mas é algo comum a todos; portanto o remédio, para ser benéfico, deve ser igualmente aplicável a todos. A prática tampouco é reservada aos reclusos que se encontram fora da vida corrente. É certamente necessário consagrar um período para nos dedicarmos, em tempo integral e com exclusividade, ao trabalho de aprender como praticar, mas isso feito, devemos aplicar o ensinamento à vida diária. Alguém que renuncia á casa e às responsabilidades mundanas para seguir o caminho tem a oportunidade de trabalhar mais intensamente, de assimilar o ensinamento com mais profundidade e, assim, progredir mais depressa. Por outro lado, alguém envolvido na vida mundana, equilibrando as exigências de muitas e diferentes responsabilidades, só pode dedicar um tempo limitado à prática. Mas, sejamos livres ou sobrecarregados de responsabilidades sociais, devemos aplicar Dhamma.

É somente o Dhamma aplicado que dá resultados. Se esse caminho, de fato, leva do sofrimento à paz, então, à medida que formos progredindo na prática, iremos nos tornar mais felizes na nossa vida diária, maia harmoniosos, mais em paz com nós mesmos. Simultaneamente, nossas relações com os outros devem tornar-se mais pacíficas e harmoniosas. Em lugar de contribuir para aumentar as tensões na sociedade, devemos ser capazes de fazer contribuições positivas que aumentem a felicidade e o bem estar de todos. para trilhar o caminho, devemos viver uma vida de Dhamma, da verdade, da pureza. É esse o caminho apropriado para implementar o ensinamento. Dhamma, praticado corretamente, é a arte de viver.


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