Yamas

Os refreamentos (yamas), palavra que vem da raiz yam, que significa refrear, domar, ter sob controle, referem-se ao domínio dos impulsos naturais, inerentes a todos os seres vivos, comuns ao homem e ao animal. Segundo Michael, T. (1976), as restrições não são particulares ao yogin, já que todo homem deve praticá-las numa certa medida.
Os votos de auto-restrições compreendem abstenções de violência, de falsidade, de roubo, de incontinência (sensualidade) e de cobiça.

Ahimsa (abstenções de violência)
Não violência
Taimni, I.K. (1996) afirma que esta qualidade denota uma atitude e um tipo de comportamento em relação a todas as criaturas vivas, com base no reconhecimento da subjacente unidade da vida.
O Sadhaka (aspirante ao caminho espiritual) que deseja se aperfeiçoar na prática de ahimsa, mantém rigorosa vigilância sobre sua mente, suas emoções, suas palavras e seus atos e começa a ajustá-los em seu ideal. Pouco a pouco, à medida que ele consegue pôr em prática seu ideal, as crueldades e injustiças contidas em seus pensamentos, palavras e atos vão se revelando, sua visão se tornando clara, e, assim, sob quaisquer circunstâncias o modo de se conduzir corretamente será conhecido por intuição. De forma gradual, este ideal de inofensividade, aparentemente passivo, transformar-se-á em uma positiva e dinâmica vida de amor, em seu aspecto de terna compaixão, em relação a todos os seres vivos e em sua forma prática, o servir.

Entretanto, estando a vida presente em toda parte, mesmo nos vegetais, é impossível existir sem destruir formas inferiores de vida. Por isso, o voto de ahimsa não reside propriamente na aplicação literal e absoluta do preceito de não destruir a vida, afinal impossível enquanto o yogin estiver vivo. Michael, T. (1976) afirma que, na realidade, "a inofensividade se mede pelo grau em que o homem consegue esvaziar seu espírito de toda e qualquer intensão hostil e animosidade inconsciente para com todas as espécies de seres criados. Quando eliminou de seus atos e pensamentos toda motivação agressiva e toda indiferença que conduz à crueldade, o yogin cultiva um espírito de amizade e de simpatia para com todas as criaturas. 

O vegetarianismo decorre naturalmente do princípio de ahimsa. Aquele que mata os seres inocentes por um desejo egoista, jamais alcançará a felicidade. Tendo-se considerado bem a origem da carne, e a crueldade de aprisionar e de abater seres encarnados, deve abster-se inteiramente de comer carne.

Mehta, R. (1995) em seu livro "Yoga a arte da integração" afirma que podemos não causar dano físico ao outro, mas isso não é tudo que ahimsa ou não violência significa. Condescender com um criticismo desaprovativo, usar uma linguagem ofensiva, mesmo expor outra pessoa a comparações - tudo isso são negações de ahimsa. O abandono de todas essas tendências e hábitos conduz a saúde do corpo e da mente. A não violência denota uma mente saudável cuja ausência dá origem a relacionamentos infelizes que causam ansiedade e tensão nervosa.

Aquele que trilha a senda do Yoga deve ter saúde do corpo e da mente. Com um corpo enfermo e uma mente doentia não é possível avançar nesta árdua jornada.



Satya (abstenções de falsidade)
Não mentir
Por que a verdade é essencial à vida do yogi? Taimni, I.K. (1996) afirma que a inverdade, em todas as suas variadas formas, cria todo tipo de complicações desnecessárias em nossa vida, sendo, assim, uma fonte de constante perturbação da mente. Para o homem insensato, cuja intuição tornou-se obscurecida, a mentira é o meio mais simples e mais fácil de escapar de uma situação indesejável ou de uma dificuldade. Qualquer pessoa que se disponha a manter-se vigilante em relação aos seus pensamentos e atos, notará que, em geral, uma mentira dá origem a muitas outras para sustentá-la, e a despeito de todos os seus esforços, na maioria dos casos, a mentira cedo ou tarde é descoberta.

Uma pessoa que começa a praticar Yoga sem antes adquirir a virtude da completa veracidade é como um homem que parte para explorar uma floresta à noite, sem qualquer luz.

Mehta, R. (1995) afirma que comumente buscamos a realização das nossas ações nos frutos que podem gerar. Assim, nossas ações são incompletas em si mesmas; buscam completar-se atrravés da realização de seus frutos. Naturalmente, se a recompensa não vem, ficamos infelizes. Dessa forma, temos que olhar o tempo todo para o futuro para obter satisfação psicológica de nossas ações realizadas no presente. Contudo, mesmo a ação do presente surge de um anseio do passado não realizado que busca sua realização. Consequentemente, não há ação pura realizada no presente.

É assim que prosseguimos amontoando experiências incompletas, que se tornam a causa das distrações do presente. Aquele que está estabelecido em satya não tem distração e, portanto, age completamente de momento a momento. Ele não busca qualquer recompensa da ação, pois, para ele, a ação é sua própria recompensa. Quando a ação é sua própria recompensa, estamos livre da escravidão do tempo.



Asteya (abstenções de roubo)
Não roubar
Segundo Michael, T. (1976), a idéia de asteya é "não apropriar-se ilegalmente daquilo que não nos pertence". Essa obrigação compreende a abstenção do roubo e mesmo da cobiça sob forma de desejo. Por esse refreamento, mantém-se a própria dignidade. Quando o yogin está perfeitamente firmado na não apropriação, os tesouros afluem de todas as partes em sua direção.

Taimni, I.K. (1996), afirma que o futuro yogi não pode se permitir apropriar-se do que não lhe pertence propriamente, não apenas dinheiro ou bens, mas até mesmo de créditos por coisas que não fez ou privilégios que de direito não lhe pertençam. Somente quando uma pessoa consegue eliminar, até certo ponto, esta tendência à apropriação indébita em suas formas mais grosseiras, é que começa a descobrir as formas mais sutis de desonestidade que permeiam nossa vida e das quais dificilmente nos conscientizamos.

"Apenas quando alguém se sente incompleto em seu interior é que rouba". Mehta, R. (1995) continua sua explicação sobre asteya afirmando que quando passamos da satisfação das necessidades para a realização de desejos, entramos na esfera do roubo. O problema desses desejos está intimamente ligado à imitação, pois queremos viver como os outros vivem.. É óbvio que a imitação surge de uma vivência incompleta. Dissemos que a imitação é um ato de roubo, pois na imitação desejamos ter o que outra pessoa tem - bens materiais ou beleza, posição, ou as ditas conquistas espirituais. Esta característica surge de um sentimento de que somos incompletos interiormente. E este sentimento de ser incompleto obviamente surge de um processo de comparação. Esta provoca um sentimento de ser incompleto, e disto surge a tendência para roubar, ou seja, de possuir o que a outra pessoa tem. Enquanto não estivermos estabelecidos em, asteya, estaremos ocupados em construir nossa natureza adquirida. E, uma vez que a natureza adquirida precisa de proteção e defesa, estamos incessantemente ocupados em salvaguardar nossos mecanismos de defesa. Todos sabemos que nossas energias são constantemente desperdiçadas nesse processo. Assim, ahimsa, satya e asteya estão integralmente relacionados uns com os outros, pois a não violência exige estarmos radicados em não falsidade, e a não falsidade é possível apenas quando estivermos estabelecidos no não roubar. Precisamos lembrar que a natureza adquirida e a sua proteção estão na natureza da manutenção da falsidade, e perseguir a falsidade é negar a própria base do não roubar.



Brahmacarya (abstenção da incontinência)
Não sensualidade / Cessação da busca do prazer
Não que a união sexual seja um pecado; pelo contrário, ela é regulada pelas leis do dharma e elevada a dignidade de um ritual, mas segundo Michael, T. (1976), o yogin quer preservar a totalidade de sua energia sexual, para empregá-la com fins superiores. Pela abstinência sexual, essa energia é transmutada, enquanto pela "queda do esperma" o poder de concentração é diminuído. Quando a continência está bem firmada, uma poderosa energia é adquirida.

Taimni, I.K. (1996) afirma que muitos estudantes sérios, profundamente interessados na filosofia do Yoga, esquivam-se de sua aplicação prática em suas vidas, porque temem ter de desistir dos prazeres do sexo. O estudante oriental, mais familiarizado com as tradições e reais condições da prática do Yoga, não comete tal engano. Ele sabe que na verdadeira vida do Yoga não há como associar a auto indulgência e a perda de força vital inerente aos prazeres da vida sexual e que ele precisa escolher entre as duas. Não se espera dele que renuncie à vida sexual, total e repentinamente, mas terá de fazê-lo por completo antes que comece a praticar, de forma séria, o Yoga superior, diferente do estudo meramente teórico, ou até mesmo das práticas preparatórias.
Ao estudante sério e avançado, esse desejo de continuar os prazeres da vida mundana com a paz e o conhecimento transcendental da vida superior parece um tanto patético e mostra a ausência do verdadeiro senso de valores em relação às Realidades da vida e do Yoga e, portanto, inaptidão para vivê-la.
É, contudo, necessário que se compreenda o que realmente se busca, ao se renunciar aos prazeres sensuais.
Aqueles que se permitem levar uma vida moderada, em termos de prazeres sensuais, na ilusão de que "estas coisas não o afetam" estão meramente adiando o esforço de uma perseverante busca do ideal do Yoga. Para aqueles de mente mundana, essa austreridade parece proibitiva, quando não sem sentido, e frequentemente as pessoas cogitam, afinal, para que o Yogi vive. Mas para o Yogi o libertar-se do apego traz uma indefinível paz mental e uma força interior ao lado da qual os prazeres dos sentidos parecem intoleráveis.

O homem está preso à rede de desejos. Seja o que for que o homem faça ou busque, é motivado pelo princípio do prazer. Mehta, R. (1995) afirma que não importa qual o campo do prazer - seja material ou o assim chamado espiritual. Cessar esta busca do prazer, na verdade, é o que indica brahmacarya.
O que significa cessação da busca do prazer? Significa levar uma vida desinteressante, enfadonha? Significa fugir das experiências do amor e da beleza? Significa dar um fim a todos os deleites e alegrias da vida? Certamente não significa isso. Se compreendêssemos a distinção entre prazer e alegria, isso ficaria claro. É a presença do apreciador que transforma a alegria em prazer e, portanto, traz consigo a dor e o pesar. Quando o apreciador é removido da experiência do prazer experimenta-se o êxtase da pura alegria. É o apreciador que busca dar continuidade à experiência agradável. Quando não se busca dar uma continuidade a uma experiência, ela termina, deixando-nos livres para viver outra experiência.



Aparigraha (abstenção da cobiça)
Não possessividade
O homem tem uma tendência a acumular indefinidamente os bens materiais desperdiçando tempo e energia na aquisição e preservação desses bens. Michael, T. (1976) afirma que o Yogi deve abster-se de acumular posses e apenas conservar aquilo que é necessário à manutenção de sua vida.

A tendência a acumular bens mundanos é tão forte que pode ser considerada quase um instinto básico. Como afirma Taimni, I.K. (1996), se vivemos no mundo físico, temos que possuir algumas coisas essenciais à manutenção do corpo, embora o essencial e o não essencial sejam termos relativos. Se faz necessário perceber  que não nos satisfazemos com as necessidades da vida. Temos que ter coisas que podem ser classificadas como luxo, coisas que não são necessárias para conservar corpo e alma juntos, mas apenas para aumentar nosso conforto e prazer. É claro que essas coisas supérfluas de nada servem, exceto para satisfazer nossa vaidade infantil e o desejo de parecer superior aos nossos semelhantes.
Afora as complicações que esse instinto causa no mundo, nos campos social e econômico é necessário despender tempo e energia acumulando coisas que de fato não necessita. A seguir é necessário gastar tempo e energia mantendo e guardando as coisas que você acumulou, com as preocupações e ansiedades da vida aumentando proporcionalmente à acumulação. Considere, então, o constante medo de perder as coisas, a dor e angústia de verdadeiramente perder algumas coisas, de vez em quando, além do pesar de deixá-las para trás ao se despedir desse mundo. Agora some tudo isso e veja que colossal perda de tempo, energia e força mental resulta de tudo isso. Assim, o futuro yogi limita suas posses e necessidades ao mínimo e elimina de sua vida todos os acúmulos desnecessários e atividades que dissipam suas energias e constituem uma fonte de perturbação constante da mente.
Deve-se ressaltar, entretanto, que, na verdade, não é a quantidade de coisas que nos rodeia o que importa, mas, sim, nossa atitude em relação a elas.
Tamini deixa claro, porém, que a exigência de cultivar essa virtude depende, principalmente, de garantir-se um estado mental livre de apegos.

Quando estamos estabelecidos em aparigraha compreendemos o significado da existência.
A não possessividade indica uma mente completamente sem lar. Enquanto a mente estiver apegada a uma conclusão e agir a partir desse centro, não se tornou sem lar.
O verdadeiro propósito da vida nos é revelado apenas quando nos abstemos de projetar nossos próprios conceitos de finalidade e propósito.
Mehta, R. (1995) afirma que nos movemos em um mundo de significações projetadas e, porque tendemos a projetar padrões idealistas, pensamos que conhecemos a significância intrínseca dos homens e das coisas. Apenas quando todas as projeções, mesmo a mais idealista, cessarem, é que o significado intrínseco da vida pode ser compreendido.

Assim, yama não significa cinco coisas diferentes que devem ser praticadas uma após a outra. É um processo negativo onde a não violência, a não falsidade, o não roubar, a não indulgência e a não possessividade estão intimamente relacionados uns com os outros, formando um todo. Este é o Grande Voto de abstinência, onde a mente é destituída de todas suas conclusões de modo a reaver sua natureza pura original.

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